Aos saudosos pessimistas da cultura, aos frustrados com a arte do hoje, e especialmente aos “novos velhos” que não se apropriaram do seu presente e conscientemente reproduzem a nostalgia daquilo que não viveram:
Eu não nasci nos “anos 70”, não vivi os “anos 70”, não sei dos tais “anos 70” mais do que os livros e meus pais podem me contar. E como ser singular do meu tempo,convivo com um discurso pessimista e saudoso que tende a sujeitar a cultura do presente, a despejar um cansado conjunto de falsas expectativas no presente as quais, obviamente, se frustram. Digo “falsas expectativas”, pois duvido muito que os saudosos pessimistas conseguiriam dar conta de um presente potente, de um presente que não se enquadra nos seus velhos discursos, nas suas velhas práticas semióticas que querem dar conta do mundo.
Caros senhores, a razão não dá conta do mundo desde o século XVII, quando o filósofo Spinoza propõe a intuição como o terceiro campo do conhecimento. Bem antes do inconsciente freudiano, bem antes da natureza das intensidades de Deleuze (que, a propósito, é um grande nome espinozista contemporâneo).
Spinoza, valorizando o conhecimento intuitivo, e, nesse sentido, a criação a partir de si (isso lá nos mil e seiscentos!), é muito mais contemporâneo do que uns tais “artistas revolucionários” dos anos 70, conhecidos meus, apaixonados pela clareza comunicativa, que dão conta do mundo, e têm, eles todos, completos e inteirinhos, seus inícios, meios e fins.
Caros senhores, os presentes não os desrespeitam, os presentes só querem a vossa licença para se apropriarem do seu próprio tempo. Aliás, cada vez que escuto que hoje a coisa vai mal e “bons mesmo eram os anos 70”, eu penso numa relação de causa e consequência bem simples: os incríveis anos setenta são fruto da geração anterior, os pobres anos 50 pós-guerra, que precisaram repensar a sua relação com a existência, após holocaustos e bombas de átomo. Nesse sentido, o hoje, dentre outros fatores, é resultado do trabalho dos jovens de 70 (por acaso, a geração da juventude dos meus pais.)
Segundo a lógica dos saudosistas conhecidos meus, posso dizer que se hoje a coisa vai mal, a culpa não é da geração 2000.
Como meu pensamento não se constrói na dialética da culpa, e eu não estou nem aí pra quem quer se responsabilizar quanto aos prejuízos do tempo presente, posso dizer que sou bastante feliz por ser do tempo do processo, do tempo da natureza das intensidades, dos confrontos. Isso me faz ser mais dono de mim e menos dono do mundo. Isso me faz respeitar a potência que há em cada singularidade, isso me torna mais livre e menos limitado, menos constrangido (também citando Spinoza).
Sou feliz por esse papo aqui não ter início, meio e fim. Por ser atravessado por diversas possibilidades, e por simplesmente abrir diálogo com quem tiver material e interesse em dialogar.
No mais, espero honestamente, caros saudosos e “velhos novos”, que vocês deixem os “anos 70” e comecem a olhar imediatamente para o aqui e agora, e percebam que criar expectativas sobre o presente é olhar o futuro! E NÃO, senhores! NÃO queiramos o futuro! Queiramos o agora, o confronto com o agora, para que simplesmente estejamos aqui com toda a nossa potência.
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