A montagem de poucos minutos, premiada no Festival de Cenas Curtas de 2010, era apenas o começo. De alguma maneira, o texto poético de Felipe Moratori já anunciava seu regresso. Ou sua metamorfose. Convidada para comandar a peça "Estranho farol dos cacos", baseada nesse primeiro esquete, a diretora Renata Rodrigues fez questão de não recorrer ao passado. Sequer assistiu a uma gravação. Chegou a ver uma fotografia recentemente, mas quando tudo já estava pronto. "Desde o princípio, falei aos atores sobre a possibilidade de o espetáculo virar uma outra coisa." A partir de hoje, quem esteve na plateia há dois anos terá a chance de decidir se o "Farol", agora mais extenso, é o mesmo ou não. Com patrocínio da Lei Murilo Mendes, a peça ocupa o teatro do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM) e marca a estreia nesse formato da Companhia Vinde Presto.
Na opinião de Renata, a proposta se modificou bastante. Afinal, ela e a atriz Licya Benatti somaram sensibilidade e entendimento pessoais ao que se consolidaria como um quarteto. "A montagem é resultado das experiências de todo o grupo." Há três meses, a diretora vem instigando o elenco, formado por Licya, Moratori e Tom Brynner. Logo no início do processo, Renata resolveu transferir os ensaios para Itaúnas (ES), local onde morou por alguns anos. Com a viagem, ela pretendia que os corpos dos jovens mineiros, já trabalhados em aulas pela bailarina Letícia Nabuco, experimentassem mar, areia e vento, elementos fundamentais em "Estranho farol dos cacos". "O ambiente favoreceu a imaginação, até então desprovida de vivência." A imersão em um universo real também facilitou as conversas sobre o texto e os complexos personagens. Equipados com câmeras, os atores saíram registrando pessoas, casas e ruas que os ajudassem na construção de cada figura.
As fotografias, reunidas, acabaram auxiliando a figurinista Daniele Geammal, do Rio. "Ali ela encontrou as cores e texturas do espetáculo", comenta Renata Rodrigues, acrescentando que Daniele esteve várias vezes na cidade para criar durante os ensaios. Algumas cenas também vieram trabalhadas de Itaúnas, mas exigiram a montagem de um quebra-cabeças. Por aqui, foi a vez de definir apontamentos, porém, sem a intenção de restringir sentidos. Para a diretora, como a dramaturgia de Felipe é aberta e fragmentada, não houve a preocupação de entregar uma única história aos espectadores. "Nosso desejo é que o público seja fisgado e entre em narrativas individuais."
Em "Os aplanadores de assoalho", espetáculo de encerramento do Curso de Teatro do CCBM do ano passado, Renata deu o pontapé na criação a partir de partituras corporais. Dessa vez, ela retorna ao método ao sugerir que os personagens cumpram rituais de convivência baseados apenas em ações. Assim, Santiago (Tom Brynner), o menino cego de uma primitiva ilha de pescadores, mantém rotinas de brincadeiras com a filha do faroleiro, Cecília (Licya Benatti), com quem teve uma relação rodeada de segredos. Ao mesmo tempo, a Velha (Felipe Moratori), amiga ou imaginação de Santiago, divide com ele formas de se estar preso em um farol. A partir desses movimentos, o drama, que trata de temas como opressão, abandono e suicídio, recebe contornos, diálogos, cores, trilha e luz.


Nenhum comentário:
Postar um comentário